domingo, 20 de julho de 2008

A Sutil Imponência da Música

Cresci entre possibilidades de cultura que hoje me vanglorio de tê-las vivenciado: meus pais tinham o hábito da leitura e cultuavam a música. Numa salinha de estar embaixo da escada que levava ao pavimento superior, uma estante relativamente grande compunha o ambiente, altiva e imponente, numa demonstração de que tudo pode pelo que tudo sabe, considerando as histórias e as informações das quais era detentora através dos pesados volumes de imaginação que o seu esqueleto sustentava. Assim, com a curiosidade aguçada pela formação recebida e pelos exemplos que me norteavam, comecei, na adolescência, a buscar leituras mais consistentes como As Duas Mães, Éramos Seis, Os Irmãos Karamazov, e outros tantos volumes pesados e carregados de emoção. As leituras, na minha casa, eram embaladas, sempre, pela música, nos seus diversos estilos, desde a clássica à MPB. A minha mãe deleitava-se ao piano – tocava muito bem – a impregnar sutilmente nos filhos, o gosto musical apurado, que marcou a nossa vida para todo o sempre, até porque a perdemos muito prematuramente. Talvez isso tenha nos transformado em fãs incondicionais do ritmo e da melodia, muito embora, sem aprofundamento técnico algum. Adotamos a música como companheira, não só nos momentos de alegria e de comemorações, mas, e, principalmente, de reflexões, de planejamento, enfim, efetivamente companheira. Tentando seguir os passos da pianista da família, estive por algum tempo lidando com a teoria e a prática, familiarizando-me com este instrumento mágico, capaz de produzir sons que enlevam. Talvez a falta de propósito, estava eu na adolescência, fez-me desistir de tal projeto, infelizmente, digo hoje. Nem isso fez com que eu afastasse a música de mim. Ao contrário, tenho um gosto musical eclético e as escolhas variam conforme o momento. Se estou escrevendo, prefiro a música instrumental – “Certas Coisas” de Milton Guedes, é o meu preferido. Traz músicas muito boas que ajudam a inspiração, como Smooth Operator, Roxanne, Ain’ t No Sunshine e outras. Se ocupada com alguma tarefa mais mecânica, prefiro a MPB, momentos que me fizeram descobrir um estilo de música mais nosso, como Avôhai de Zé Ramalho, excêntrico, tipo Zeca Baleiro, cujo conteúdo das letras são fortes, satirizam, a exemplo do Samba do Approach, que brinca com a questão do estrangeirismo, tão sério e já enraizado nos nossos costumes. As minhas peças para Teatro de Bonecos, essencialmente de cunho didático ( sobre fraseologia popular, diversidade cultural, etc.), são sempre enriquecidas com músicas como a de João Bosco, No Tabuleiro da Baiana, para enfocar as nossas raízes, os nosso costumes. Tem coisa mais prazerosa do que aprender com fantoches e cantando as nossas “coisas”? Pois é... a música consegue nos reenergizar e purificar o nosso dia. Eu tive a sorte de descobrir que isso tem fundamento. Acreditem. E para deleite de todos nós, Luiz Bonfá toca a sua arte. Assistam!
Lygia Prudente

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