domingo, 20 de julho de 2008

O Fascínio das Bancas de Revistas & Jornais

Arte: Simone Prudente

Difícil é passar por uma e não entrar. Tudo começou com a Bomboniére Chic, administrada pelo saudoso Moacir, pessoa afável e educada. Ficava na Rua Laranjeiras, anexa ao Ponto Chic, (na época, famoso restaurante da cidade, onde hoje funciona a Delegacia do Ministério do Trabalho, na esquina com a Rua João Pessoa). Depois mudou-se para o primeiro trecho da Rua João Pessoa, no Calçadão, transferindo-se em seguida para a Rua Itabaiana, onde permaneceu até o seu fechamento. Considerada o ponto de encontro dos amantes da leitura, políticos e intelectuais, tinha sua maior frequência por volta das 16:30 h., quando chegavam os jornais do sul do país – isto quando não extraviavam, só chegando no outro dia. Nessa época o jornal de maior circulação era o Jornal do Brasil, acompanhado de O Globo e O Estado de S.Paulo e, por ocasião das diretas já, da Folha de S. Paulo, que começou a ter destaque no cenário editorial, pelo seu engajamento político, chegando a concorrer com o Jornal do Brasil em termos de aceitação. Um dos habitués da Chic era o Professor “Zé” Cruz, intelectual, muito conhecido dos Sergipanos, que dizia jamais fazer assinatura de um jornal, pois o prazer estava em ir pessoalmente pegar seu exemplar na Chic. Lá também poder-se-ia encontrar Erotildes, que brincava com quem comprava dois jornais, a Folha e o JB, e perguntava “como você vai ler tudo isso?”. Das revistas semanais da época, destacava-se O Cruzeiro já em seus últimos dias, massacrada pela sua concorrente imediata a revista Manchete, em seu auge, pois com a TV ainda precária e em preto e branco, o Sergipano via o Brasil e o Mundo pela Manchete, com suas fotos grandes e coloridas. Nas famílias, quando o pai chegava em casa com a revista, era uma disputa para ver quem ia ler primeiro. Por ocasião do carnaval era editada a Manchete Especial que fazia a alegria dos patriarcas da época, para ciúme das recatadas e pudicas esposas de nossa querida “barbosópoles”. Em 1968 surgia a revista semanal de texto - como era chamada - a Veja, que viria forçar o fim da revista Visão. Depois, outras surgiram como a Isto É e Afinal. Também se destacavam a Senhor e a Revista Geográfica Universal. Nesta época, uma revista de grande sucesso junto aos leitores foi Realidade, várias vezes apreendida pela censura, por ousadia de suas reportagens. Outra que sofreu muito com a falta de liberdade de expressão foi a Ele & Ela, revista de nus femininos, voltada para o público masculino, mas com textos muito bons sobre costumes e comportamento, educando muitos jovens em sua iniciação sexual, papel hoje feito pelas revistas voltadas ao público feminino, a exemplo da Cláudia. Na chic, pela manhã, encontrávamos os jornais locais: Gazeta de Sergipe de Orlando Dantas, Diário de Aracaju de Assis Chateaubriand, A Cruzada da Arquidiocese, Jornal da Semana de Hugo Costa, Tribuna de Aracaju de Ribeirinho, Jornal de Sergipe de Nazário Pimentel. Todas as bancas e lojas que vendiam revistas e jornais localizavam-se no centro da cidade, com a exceção da banca do Mini - Golfe. No centro, destacava-se a banca de Roberto que ficava em frente à Ponte do Imperador, sendo aos domingos ponto de encontro de amigos, mudando-se depois para a Pça. Fausto Cardoso. A Banca do Coelho, ficava em frente ao Cine Palace, na Rua João Pessoa, já Calçadão, pois quando da construção do mesmo, foram instaladas três bancas em cada trecho, todas padronizadas e feitas de vidro blindex. Uma banca muito visitada era a que ficava ao lado da Igreja São Salvador. Existia uma loja de revistas na rua Itabaianinha, próximo ao Cinema Vitória, que fazia parte do programa, ir ao cinema e na volta passar na mesma. Em formato de corredor, as revistas eram empilhadas, facilitando muito a escolha e manuseio. Surgiram depois as bancas da Livraria Regina, espaçosas e organizadas, que se espalharam por todo o centro. A mais famosa era a que ficava na Rua Laranjeiras, chegando à Rua da Frente. Nessa época as coleções de fascículos eram uma febre,como “A História do Século 20” e a “Enciclopédia Universo”, que, depois de completadas a coleção, eram entregues lá mesmo para encadernar. Hoje, as bancas encontram-se espalhadas por toda a cidade, oferecendo grande diversidade de editoras e revistas segmentadas, apesar da redução das tiragens, causadas pela opção da internet, forçando-as à uma adaptação ao novo tempo sem, contudo, deixar de exercer o fascínio ante o prazer de uma boa leitura.

Armando Maynard

9 comentários:

Marlene Alves Calumby disse...

Armando,parabéns pelo trabalho,voce é um excelente memorialista,deveria estar prestando este trabalho de forma remunerada num espaço cultural de destaque e governamental,quem sabe um dia presenciarei isso acontecer.Sua fã incondicional,MARLENE ALVES CALUMBY.

Armando Maynard disse...

RESPOSTA: Amiga Marlene, muito obrigado pelo elogio. É um grande estímulo para que Eu continue. Você me deixou emocionado. Grato, Armando

Murillo Oliveira disse...

Obrigado pela visita ao meu blog ( http://tiolillo.blogspot.com/ ), tem muito tempo que passei por uma banca de revistas.

Clara Lopez disse...

Ola, maynard, gostei de seu post, e vc acredita que ontem fui ver Batman no Botafogo Artplex e entrei na livraria de lá, que tem livros ótimos. Fiquei fascinada com o Toda a Mafalda, personagem da minha adolescência, e acabei comprando tb um exemplar de Luluzinha, para relembrar a infância. Meu pai trabalhava n'O Cruzeiro e toda semana nossa leitura certa era Luluzinha, Bolinha, Pimentinha, além de A Cigarra, claro. Que enorme coincidência de momentos...:)
um abraço,
clara lopez

Nathália disse...

Eu entro muito em bancas de revistas. Mas como ultimamente ando sem dinheiro, tô mais é comprando aquelas revistinhas de passatempo, sabe? Hehe.

Beijo!

Ana R. disse...

Também sou fascinada pelas bancas de revistas e jornais. Já desejei ter uma banca de jornal muitas vezes. Mas é complicado. Quando era pequena, desapareci de casa e me encontraram ajudando o jornaleiro a vender as revistas....
Obrigada pela visita e adicionei seu blog aos meus favoritos...
Abraços!

Elaine Mesoli disse...

Cara, isso só lembrou de minha infância. Meu pai, comprador assíduo da Manchete e do jornal de minha cidade. A conta da banca era enorme por minha causa. Todos os dias eu comprava revistas pra adolescentes, como as antigas Carinho e Carícia, romances usados e gibis.
Quisera voltar aos dez anos...

Anselmo Bittencourt disse...

Armando, parabéns.
Essa foi uma época memorável. Estudei toda a minha vida no Jackson de Figueiredo e não esqueço nunca o saudoso "cahorro quente" do seu João (não me lembro o nome dele agora). Era uma bela época, matávamos aula para ficar fumando escondido atrás da catedral - hoje já não tem mais o mudo de proteção. A chico passou um perído arrendada a um tio meu Daniel Barros e curtir muito esse bel ponto "chic" de Aracaju, que , infelizmente, não volta mais.

Anselmo Pereira Bittencourt
http://anselmobittencourt.blogspot.com

Jonga Olivieri disse...

Muito bom. Sempre fui "rato" de bancas de jornal!