domingo, 27 de julho de 2008

Saudades do Cine Palace (8)

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O Palace era de propriedade de Paulo Dantas, e foi inaugurado com a exibição do filme Sete Noivas para Sete irmãos. Mas o primeiro filme que eu lembro de ter assistido, no mesmo, foi O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1956), direção de Alfred Hitchcock, com James Stewart e Doris Day, que canta a música tema Que será, será, Oscar de melhor canção, um dos momentos mais emocionantes do filme. Outra cena marcante, é quando, em um Teatro, acontece um atentado com arma de fogo e o barulho do tiro é abafado pelo batimento dos pratos da orquestra que se apresenta naquele momento, gerando um suspense, enfatizado pelo projecionista com o aumento do som, a fim de assustar os espectadores. Outro filme de suspense no qual foi usado o mesmo recurso, pelo projecionista, foi O EXORCISTA (1973), direção de William Friedkin, com Linda Blair e Max Von Sydow, filme ganhador de dois Oscars. Quando da sua exibição gerou grande expectativa e era motivo de comentários e polêmicas na comunidade católica. Na época, falava-se dos sustos que se tomava em algumas cenas. Bons tempos aqueles que, para nos assustarmos, era preciso entrar no cinema. Hoje nos assustamos quando saímos dele...

foto e texto de Armando Maynard

domingo, 20 de julho de 2008

A Sutil Imponência da Música

Cresci entre possibilidades de cultura que hoje me vanglorio de tê-las vivenciado: meus pais tinham o hábito da leitura e cultuavam a música. Numa salinha de estar embaixo da escada que levava ao pavimento superior, uma estante relativamente grande compunha o ambiente, altiva e imponente, numa demonstração de que tudo pode pelo que tudo sabe, considerando as histórias e as informações das quais era detentora através dos pesados volumes de imaginação que o seu esqueleto sustentava. Assim, com a curiosidade aguçada pela formação recebida e pelos exemplos que me norteavam, comecei, na adolescência, a buscar leituras mais consistentes como As Duas Mães, Éramos Seis, Os Irmãos Karamazov, e outros tantos volumes pesados e carregados de emoção. As leituras, na minha casa, eram embaladas, sempre, pela música, nos seus diversos estilos, desde a clássica à MPB. A minha mãe deleitava-se ao piano – tocava muito bem – a impregnar sutilmente nos filhos, o gosto musical apurado, que marcou a nossa vida para todo o sempre, até porque a perdemos muito prematuramente. Talvez isso tenha nos transformado em fãs incondicionais do ritmo e da melodia, muito embora, sem aprofundamento técnico algum. Adotamos a música como companheira, não só nos momentos de alegria e de comemorações, mas, e, principalmente, de reflexões, de planejamento, enfim, efetivamente companheira. Tentando seguir os passos da pianista da família, estive por algum tempo lidando com a teoria e a prática, familiarizando-me com este instrumento mágico, capaz de produzir sons que enlevam. Talvez a falta de propósito, estava eu na adolescência, fez-me desistir de tal projeto, infelizmente, digo hoje. Nem isso fez com que eu afastasse a música de mim. Ao contrário, tenho um gosto musical eclético e as escolhas variam conforme o momento. Se estou escrevendo, prefiro a música instrumental – “Certas Coisas” de Milton Guedes, é o meu preferido. Traz músicas muito boas que ajudam a inspiração, como Smooth Operator, Roxanne, Ain’ t No Sunshine e outras. Se ocupada com alguma tarefa mais mecânica, prefiro a MPB, momentos que me fizeram descobrir um estilo de música mais nosso, como Avôhai de Zé Ramalho, excêntrico, tipo Zeca Baleiro, cujo conteúdo das letras são fortes, satirizam, a exemplo do Samba do Approach, que brinca com a questão do estrangeirismo, tão sério e já enraizado nos nossos costumes. As minhas peças para Teatro de Bonecos, essencialmente de cunho didático ( sobre fraseologia popular, diversidade cultural, etc.), são sempre enriquecidas com músicas como a de João Bosco, No Tabuleiro da Baiana, para enfocar as nossas raízes, os nosso costumes. Tem coisa mais prazerosa do que aprender com fantoches e cantando as nossas “coisas”? Pois é... a música consegue nos reenergizar e purificar o nosso dia. Eu tive a sorte de descobrir que isso tem fundamento. Acreditem. E para deleite de todos nós, Luiz Bonfá toca a sua arte. Assistam!
Lygia Prudente

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O Fascínio das Bancas de Revistas & Jornais

Arte: Simone Prudente

Difícil é passar por uma e não entrar. Tudo começou com a Bomboniére Chic, administrada pelo saudoso Moacir, pessoa afável e educada. Ficava na Rua Laranjeiras, anexa ao Ponto Chic, (na época, famoso restaurante da cidade, onde hoje funciona a Delegacia do Ministério do Trabalho, na esquina com a Rua João Pessoa). Depois mudou-se para o primeiro trecho da Rua João Pessoa, no Calçadão, transferindo-se em seguida para a Rua Itabaiana, onde permaneceu até o seu fechamento. Considerada o ponto de encontro dos amantes da leitura, políticos e intelectuais, tinha sua maior frequência por volta das 16:30 h., quando chegavam os jornais do sul do país – isto quando não extraviavam, só chegando no outro dia. Nessa época o jornal de maior circulação era o Jornal do Brasil, acompanhado de O Globo e O Estado de S.Paulo e, por ocasião das diretas já, da Folha de S. Paulo, que começou a ter destaque no cenário editorial, pelo seu engajamento político, chegando a concorrer com o Jornal do Brasil em termos de aceitação. Um dos habitués da Chic era o Professor “Zé” Cruz, intelectual, muito conhecido dos Sergipanos, que dizia jamais fazer assinatura de um jornal, pois o prazer estava em ir pessoalmente pegar seu exemplar na Chic. Lá também poder-se-ia encontrar Erotildes, que brincava com quem comprava dois jornais, a Folha e o JB, e perguntava “como você vai ler tudo isso?”. Das revistas semanais da época, destacava-se O Cruzeiro já em seus últimos dias, massacrada pela sua concorrente imediata a revista Manchete, em seu auge, pois com a TV ainda precária e em preto e branco, o Sergipano via o Brasil e o Mundo pela Manchete, com suas fotos grandes e coloridas. Nas famílias, quando o pai chegava em casa com a revista, era uma disputa para ver quem ia ler primeiro. Por ocasião do carnaval era editada a Manchete Especial que fazia a alegria dos patriarcas da época, para ciúme das recatadas e pudicas esposas de nossa querida “barbosópoles”. Em 1968 surgia a revista semanal de texto - como era chamada - a Veja, que viria forçar o fim da revista Visão. Depois, outras surgiram como a Isto É e Afinal. Também se destacavam a Senhor e a Revista Geográfica Universal. Nesta época, uma revista de grande sucesso junto aos leitores foi Realidade, várias vezes apreendida pela censura, por ousadia de suas reportagens. Outra que sofreu muito com a falta de liberdade de expressão foi a Ele & Ela, revista de nus femininos, voltada para o público masculino, mas com textos muito bons sobre costumes e comportamento, educando muitos jovens em sua iniciação sexual, papel hoje feito pelas revistas voltadas ao público feminino, a exemplo da Cláudia. Na chic, pela manhã, encontrávamos os jornais locais: Gazeta de Sergipe de Orlando Dantas, Diário de Aracaju de Assis Chateaubriand, A Cruzada da Arquidiocese, Jornal da Semana de Hugo Costa, Tribuna de Aracaju de Ribeirinho, Jornal de Sergipe de Nazário Pimentel. Todas as bancas e lojas que vendiam revistas e jornais localizavam-se no centro da cidade, com a exceção da banca do Mini - Golfe. No centro, destacava-se a banca de Roberto que ficava em frente à Ponte do Imperador, sendo aos domingos ponto de encontro de amigos, mudando-se depois para a Pça. Fausto Cardoso. A Banca do Coelho, ficava em frente ao Cine Palace, na Rua João Pessoa, já Calçadão, pois quando da construção do mesmo, foram instaladas três bancas em cada trecho, todas padronizadas e feitas de vidro blindex. Uma banca muito visitada era a que ficava ao lado da Igreja São Salvador. Existia uma loja de revistas na rua Itabaianinha, próximo ao Cinema Vitória, que fazia parte do programa, ir ao cinema e na volta passar na mesma. Em formato de corredor, as revistas eram empilhadas, facilitando muito a escolha e manuseio. Surgiram depois as bancas da Livraria Regina, espaçosas e organizadas, que se espalharam por todo o centro. A mais famosa era a que ficava na Rua Laranjeiras, chegando à Rua da Frente. Nessa época as coleções de fascículos eram uma febre,como “A História do Século 20” e a “Enciclopédia Universo”, que, depois de completadas a coleção, eram entregues lá mesmo para encadernar. Hoje, as bancas encontram-se espalhadas por toda a cidade, oferecendo grande diversidade de editoras e revistas segmentadas, apesar da redução das tiragens, causadas pela opção da internet, forçando-as à uma adaptação ao novo tempo sem, contudo, deixar de exercer o fascínio ante o prazer de uma boa leitura.

Armando Maynard

sábado, 12 de julho de 2008

A Feirinha de Natal

Fotos: de Armando Maynard

No inicio do mês de dezembro começavam os preparativos para a Feirinha de Natal, festa tradicional do Aracajuano, que se instalava no Parque Teófilo Dantas, no centro de Aracaju-Se. Tinha sua culminância na noite de 24 de dezembro, véspera de Natal, e ia até o dia 6 de janeiro, festa de Reis. Eram atrativos na festa diversos brinquedos como A Onda, Os Barquinhos, A Roda Gigante, e o famoso Carrossel do Tobias, um dos brinquedos mais tradicionais da época, e um patrimônio dos sergipanos que se perdeu – mais um. Quando o carrossel ia começar a rodar, avisava com um possante apito, que era ouvido em várias partes da cidade. Havia atrações por todo o parque, como as casinhas de teatro, com apresentações como A Bela e a Fera. Uma delas, atraía grande público, pois na sua fachada, acima da porta de entrada, tinha uma boneca vestida de baiana, rebolando ao som de uma frenética música. Por toda a praça ficavam espalhadas várias barracas e cercados, como a do tiro ao alvo com espingarda de ar comprimido, cuja munição eram setinhas, como a da pescaria na areia, em cujo peixe, de metal, estava escrito o nome do brinde e o jogo de argolas para laçar o prêmio. Um dos brindes mais desejados dos jovens eram as carteiras de cigarro, principalmente a minister. Do outro lado da Catedral ficavam as grandes e vistosas bancas de roletas, que depois foram proibidas. Ao fundo, os bares, onde a boemia se esbaldava até altas horas da noite, ouvindo músicas do cancioneiro popular, como Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Cauby Peixoto. À frente da igreja eram enfileirados os bancos das tradicionais famílias, constando nos seus encostos os nomes dos proprietários, que, à noite os ocupavam e, sentados, assistiam à movimentação dos transeuntes e o passeio dos jovens na grande passarela que se formava, cujo percurso ia da frente da Catedral, passando pela Sorveteria Iara, Pça. Fausto Cardoso até a Ponte do Imperador, num vai-e-vem interminável. Aos domingos, a mesma avançava pela Rua João Pessoa, quando as lojas abriam para expor suas reluzentes vitrines até as 22 horas. Era o footing, ou mais popularmente conhecido naquela época como “O Quem me Quer”. A vitrine da P. Franco chamava atenção pelo lançamento de modernos eletrodomésticos. Outras lojas também destacavam-se como a Dernier Cry, A Moda, Magazin dos Móveis. A Lar Belo, especializada em móveis e decorações, era a mais movimentada nas noites de domingo. Uma grande rampa que levava à parte superior da loja possibilitava um sobe e desce da turma da paquera. O passeio pela João Pessoa terminava na esquina da Rua São Cristóvão, na loja de sapatos Esquina da Economia, que no seu interior era cheia de espelhos - o deleite das garotas que ficavam a se olhar e arrumar as roupas e cabelos. Tempo do perfume Lancaster, do gumex, pente de metal, da camisa volta ao mundo e do cigarro continental (por ser o mais barato), do cuba libre na Iara, da cerveja geladíssima no Cacique Chá e da sopa mão de vaca na Cascatinha. Não esquecendo do sorvete da Cinelândia e do Cachorro Quente de seu João. De volta ao parque... à meia noite havia a Missa do Galo. Nesta hora todos os brinquedos paravam, o Carrossel com seu apito silenciava e o serviço de alto-falantes passava a transmitir a santa missa. A feirinha de Natal era especial para a criançada, que nas tardes de dezembro, já de férias da escola, divertia-se bastante, pois além de várias atrações com a série de brinquedos ali existente, havia uma grande quantidade de guloseimas, como a maçã coberta com melado de açúcar, pirulito enrolado num papel e enfiado no palito, algodão doce nas cores branco e rosa, rolete de cana caiana, pipoca de milho doce e salgado, amendoim torrado e castanha de caju, bala de café, mariola e fubá, chiclete de bola, picolé de mangaba, balões de gás - sucesso na época que apareceu por aqui - bolas de soprar de todas as formas e tamanhos, brinquedos artesanais feitos de madeira como o mané gostoso. Bons tempos que não voltam mais, tendo ficado registrado na lembrança e na saudade dos que viveram o Aracaju antigo. Muitos anos depois quiseram reviver esta mesma Feirinha no Parque da Sementeira, mas não vingou. Os tempos são outros, as crianças hoje querem é videogame e com certeza diriam que o Carrossel do Tobias era devagar demais.
Armando Maynard

terça-feira, 8 de julho de 2008

Afetividade Animal

Por uma Educação Artesanal

Escola, escola, escola... sou estudante, sou educadora, sou mãe...
Como educadora procuro exercer minha profissão segundo minhas convicções que insistem em não me deixar esquecer que cada criança é única e necessita ser respeitada e estimulada de acordo com o seu processo de desenvolvimento seja ele natural ou prejudicado por fatores diversos.
Como mãe sofro por perceber que alguns professores não pensam exatamente dessa forma.
Sei das dificuldades da inclusão e da luta dos pais que não se acomodam diante das adversidades encontradas ao longo do percurso.
Mas percebo que não é apenas a criança com deficiência que sofre. Sofre também a criança hiperativa, sofre a criança que é tida como imatura, sofre a criança tímida, a insegura, a que tem alguma dificuldade de aprendizagem...Enfim, sofrem todos os que de uma forma ou de outra diferem da maioria, não se encaixam na forma... porque a escola, affff!!!!! A escola ainda não consegue trabalhar com as diferenças. Será que um dia conseguirá?
O problema é que em algumas escolas (ou seria a maioria?) usa-se apenas um tipo de forma, inclusive no tamanho. Alguns ficam espremidos, apertados, sufocados, pobres coitados!!! Magrinhos, gordinhos, baixinhos ou mais altos, todos, sem excessão precisam caber nela, não existe outra opção. Escolas falidas, fadadas ao fracasso por falta de formas.
No preparo da massa, os mesmos ingredientes e nas mesmas quantidades, sempre...O ritual, repetido exaustivamente, tudo muito previsível e friamente calculado. Se ocorre um imprevisto: o dia mais quente, a massa cresce mais rápido...ou, dia mais frio e a massa demora a crescer, seja o que Deus quiser...
As vezes quando percebe-se que a massa não está a contento, pode-se repetir o processo, quantas vezes isso se fizer necessário, ainda que os procedimentos sejam exatamente os mesmos. Algumas vezes, ela não passa nos testes de qualidade e é reprovada.
Tal qual numa linha de montagem a igualdade dos objetos finais é a prova da qualidade do processo. Produção em série e controle de qualidade, são as metas desse modelo. Os produtos que não se encaixam nesse padrão são descartados ao longo do processo. Alguns são banidos logo na primeira seleção.
Os operários? Ah! não são eles os únicos responsáveis. Sobrecarga de trabalho, caixas e mais caixas de produtos empilhados (ou seria enfileirados?) na sua frente, os salários baixos muitas vezes obrigam-nos a ter que trabalhar em várias fábricas!
Enquanto isso continuamos sonhando com uma educação mais artesanal, onde cada obra, ainda que haja a intenção de torná-la igual sempre acabará ganhando um toque especial que a diferencia da original...Com o dia em que pudermos ajudar a modelar cada uma dessas esculturas que passam pelas nossas mãos e vê-las como obras únicas e especiais.
Antes talvez, o educador precise auto-esculpir-se, conscientizar-se da sua responsabilidade, refazer sua dignidade e encontrar seu valor.
Postado originalmente no http://sobreeducacao.blogspot.com/

sábado, 5 de julho de 2008

Cine Rio Branco


O Cine Rio Branco ficava no segundo trecho da Rua João Pessoa, hoje calçadão, no centro da cidade de Aracaju/SE. Foi inaugurado em 1913. Era um dos mais antigos cinemas do Brasil. Antes chamava-se Teatro Carlos Gomes, depois passou a ser denominado Cine Teatro Rio Branco e, após alguns anos, ficou somente Cine Rio Branco. Era de propriedade do Sr. Juca Barreto. Foi tombado pelo patrimônio histórico e depois “destombado”, coisas de Sergipe. Demolido sob protesto da classe intelectual sergipana, hoje funciona no local uma loja de tecidos. No século passado grandes artistas como Procópio Ferreira , Bidu Sayão, Tito Shipa e muitos outros se apresentaram em seu palco. Suas visitas ficavam registradas através de placas de mármore afixadas em suas paredes. Na década de 80, quando o cinema estava arrendado e já em total decadência, só exibia filmes pornôs. Era o único cinema da cidade a possuir duas cortinas, uma vermelha de veludo, afastada da tela e outra branca e fina encostada na tela. Esta mesma tela era de formato cinemascope, muito grande, e côncava, detalhe este ressaltado quando da divulgação de filmes, pelo carro de propaganda, ao anunciar pelas ruas da cidade: “ Assista hoje na tela côncava e cinemascope do Cine Rio Branco, o filme Suplício de Uma Saudade” (1955). Houve época em que a programação do Rio Branco era uma das melhores da cidade, superando de longe a dos outros cinemas. Lembremos alguns filmes : O Manto Sagrado - 1953 (filme que lançou mundialmente o formato cinemascope), A Volta ao Mundo Em 80 Dias - 1956 (cuja música tema era usada como prefixo do cinema), A Ponte do Rio Kwai (1957), Os Canhões de Navarone (1961), El Cid (1961), Lawrence da Arábia (1962), Cleópatra (1963), sendo este um dos filmes mais longos desta época, com quatro horas de duração. Pensem, assistir este filme, à tarde, em um cinema do lado do sol, sem ar condicionado. Tempos que para ver um bom filme, você tinha que suar a camisa literalmente. Um fato curioso aconteceu durante uma sessão: um espectador sentiu um cheiro de queimado, e gritou que estava havendo um incêndio. Correria total, pé na porta (que dava para a rua) para que a mesma se abrisse. Mas foi alarme falso, e aí voltaram todos e mais alguns transeuntes que iam passando na hora, e aproveitaram para entrar de graça no cinema. Um dos primeiros avisos que a sessão já ia começar, era quando acendiam-se as luzes da sala e o funcionário começava a fechar as portas laterais. Este mesmo funcionário era encarregado de pintar coloridos painéis, os quais eram ilustrados com fotos e cartazes dos filmes, e ficavam expostos próximos ao cinema, ao lado da Igreja de São Salvador, na Rua João Pessoa.
Armando Maynard

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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Saudades do Cine Palace (7)


Quando do lançamento de um filme, em salas de cinema, alguns materiais são usados para sua divulgação, como : trailer, fotos ( hoje em desuso, usa-se mais os grandes painéis de papelão com suportes para que fiquem em pé, expostos nas salas de espera ou nos corredores dos Shoppings), banners, spots para rádios e tvs, mas o que sempre foi, e até hoje continua sendo adotado pelos multiplexes de shoppings, são os cartazes ou posters, que são usados também em facsimile, para publicidade em jornais e revistas. O cartaz, é uma peça que tem valor artístico reconhecido, que hoje é motivo de exposições em galerias, sendo também uma grande referência do filme, ficando na memória do espectador. Os cartazes, dependendo da autorização dos produtores do filme e por força de lei de cada país que o filme será exibido, ganha características próprias , sendo as vezes totalmente modificados. No Cine Palace na parede externa da sala de exibição, que ficava pela Travessa Benjamin Constant, havia três dispositivos grandes, embutidos na parede,com porta de vidro, para colocar cartazes/posters, dentro do padrão da época. Alguns que ficaram na memória; E o Vento Levou...(1939), quando reprisado , Sete Noivas para Sete Irmãos (1954) - filme que inaugurou o cinema e que foi posteriormente reprisado, A Face Oculta (1961), E T – O Extra Terrestre (1982), Amadeus (1984) e O Último Imperador(1987).
Armando Maynard

Cadê a Cadeira de Balanço da Vovó? (os tempos são outros... e elas também!!!)

A expectativa de vida vem aumentando de forma surpeendente. Gostando ou não a maioria de nós vai viver mais do que os nossos pais viveram. Segundo o IBGE, esta realidade não é um fenômeno nacional, mas uma tendência mundial. Em todo o mundo, a esperança de vida aumentou 19 anos entre 1950 e os dias de hoje. Em 2050, a população de idosos deve atingir 2 bilhões, ou quase 25% da população do planeta. Na verdade, esta é uma boa ou má notícia? A resposta é um quebra-cabeças e varia de pessoa para pessoa. Cabe a cada um de nós decidir. Pode ser uma má notícia. Péssima mesmo, se nos condenarmos a envelhecer e, deprimidos, sozinhos e sem vitalidade, ficarmos esperando os últimos dias. Pode ser uma excelente notícia. Como? A idade nos traz conhecimentos e experiências acumulados, que dão liberdade para escolher nosso próprio caminho, fixar as próprias regras, nos permitem lidar com os acidentes da vida sem impulsividade, sem sentimentos desgovernados, sem passividade, culpa ou rancor. Temos tempo para cuidar de nós mesmos, para criar e colocar em prática, projetos e sonhos, com a coragem e confiança que só a idade garante. Mudar hábitos de alimentação, deixar de fumar, fazer exercícios físicos regulares, colocar em prática alguns projetos de vida, dançar, viajar, passear, por que não? Podem não ser o elixir da juventude, mas, seguramente, trazem mais bem estar e qualidade de vida. Em consequência, afloram os benefícios da interação social e a descoberta de novos amigos, com interesses comuns e mesmos desafios diante da vida. Mas... e onde estão as vovós? A gente não está encontrando mesmo, porque elas mantém uma rede de amigos e estão tomando sol numa praia... ou consultando a internet para satisfazer qualquer que seja a curiosidade. Elas não acreditam na obrigação do envelhecer, vivem no presente e tem planos para o futuro. E curtem saber que vem muito mais pela frente do que o que ficou para trás, que vale a pena investir em seu bem-estar e podem "chegar aos 100" com saúde e entusiasmo diante da vida, graças a Deus e às novas formas de pensar.
Lygia Prudente

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Delírios... ou Retrocesso da Humanização?

Nunca foi tão fácil ter acesso às informações em tão pouco tempo. Evidentemente, tudo isso advém das transformações de ordem política e econômica mundial que, nos últimos tempos, vem acontecendo, favorecendo a integração dos mercados numa "aldeia-global", explorada pelas grandes corporações internacionais. Há, incontestavelmente, uma uniformização das informações - provocada pela crescente popularização dos canais de TV por assinatura e pela internet - fazendo com que os desdobramentos da globalização ultrapassem os limites da economia e incidam numa certa homogeneização cultural entre os países. As facilidades na comunicação e nos transportes, favorecem a instalação de fábricas, pelas transnacionais, em qualquer lugar do mundo, onde existam as melhores vantagens fiscais, mão-de-obra e matérias-primas baratas. Por conta disso, a concorrência internacional tem, a meu ver, obrigado as empresas a cortar custos, com o objetivo de obter preços menores e qualidade alta para os seus produtos, o que vem eliminando vários postos de trabalho, em consequência da automação de vários setores, em substituição à mão-de-obra humana. Sabe-se, porém, que milhares de empregos são extintos, e, no entanto, criam-se outros pontos de trabalho e novas oportunidades surgem a exemplo da área de informática. Todavia, é bom ressaltar, essa nova demanda dificilmente absorverá os excluídos, considerando que os empregos emergentes exigem um alto grau de qualificação profissional. Consequentemente... raciocinemos juntos: o desemprego tende a se concentrar nas camadas menos favorecidas, com baixa instrução escolar e pouca qualificação. É impossível não se constatar que no mundo internacionalizado o que mais há é desemprego. E quem fica à margem do crescimento e das oportunidades, está condenado ao atraso e à miséria. O sistema de globalização tomou vulto produzindo coisas supostamente boas e baratas, vendidas numa escala planetária, fabricadas em grande parte por robôs. Todavia, para desencanto de uma grande maioria da população, o fato de todo este processo de transformação provocar a extinção de empregos e redução do poder de compra de assalariados, não haverá muito quem possa comprar a tal produção fantástica de reluzentes carros e computadores multimídia. Outro aspecto negativo embutido no processo de globalização, refere-se ao desaparecimento das fronteiras nacionais, provocando um descontrole sobre a política econômica interna, repercutindo, direta ou indiretamente no emprego e na renda do assalariado. Portanto, as minhas colocações fundamentaram-se em leituras e acompanhamento dos acontecimentos diários que mostram claramente que o processo de globalização em marcha, acabou com os limites geográficos, inegavelmente, mas não eliminou a fome, a miséria e os problemas políticos de milhões de globalizados, até porque há uma saturação do modelo desenvolvimentista atual, pelo fato de não atender às necessidades da população de baixa renda e por não proporcionar a elas, condições mínimas de dignidade e de decente sobrevivência.
Lygia Prudente

terça-feira, 1 de julho de 2008

Gazeta de Sergipe


O Jornal de seu Orlando, o homem do terno de linho branco. A Gazeta de Sergipe foi criada pelo idealista Orlando Dantas em 1956, com o nome primeiro de Gazeta Socialista. Funcionava na popularmente conhecida Rua da Frente, ou seja, Av. Rio Branco, providencialmente, em frente ao Bar do Pinto, onde reunia-se a turma do jornal, que, entre uma cerveja e outra, pautavam as reportagens. A nata do jornalismo sergipano trabalhava na Gazeta, como Luiz Carlos Barreto – clicherista e fotógrafo, João Oliva Alves, Luiz Antonio Barreto, Pascoal Maynard, José Rosa, Ancelmo Góes, José Carlos Monteiro, Ivan Valença, Nino Porto, Diógenes Brayner, Ezequiel Monteiro, Alberto Carvalho, Fernando Maynard como revisor, Gilvan Manoel, Rita Oliveira, Cláudio Nunes, Paulo Brandão - neto de Orlando - e seu último diretor, Eronildes Nogueira, seu contador e gerente e Sebastião Chagas - o Lelê. Contava com colaboradores como Paulo Fernando Teles de Morais, Petrônio Gomes e Acrísio Torres. Nos tempos áureos da Gazeta, foram empreendidas várias campanhas, como O Petróleo é Nosso, pelo Porto de Sergipe e na da defesa de nossos minérios. Na época da revolução, por causa do seu conteúdo, editores e jornalistas eram chamados ao Exército para prestar explicações sobre as matérias. A segunda página do jornal era da dupla Zózimo Lima, com sua coluna Variações em Fá Sustenido e a Coluna de Ariosvaldo Figueiredo, dois intelectuais de peso, que engrandeciam o jornal. No meio da página, os Grandes Editoriais davam verdadeiras aulas de ética e política. Na quarta página o Informe GS, coluna de Nino Porto, trazia notas políticas com pitadas de bom humor. A Coluna Social com Lânia Duarte, Clara Angélica, Luiz Adelmo e, depois, Pedrito Barreto, contava os fatos da sociedade, enquanto a coluna de cinema de Ivan Valença relatava os festivais, como o de Cannes, ao qual compareceu. Diógenes Brayner com sua excelente coluna de análise política. E na últma página grande cobertura esportiva. Aos domingos havia o suplemento Gazetinha. O noticiário local era muito completo. Suas Grandes Reportagens na área policial acompanhava os crimes até a sua elucidação. Dois exemplos foram os crimes de Carlos Werneck, assassinado pelo sapateiro La Conga e do médico Carlos Firpo, casado com Dona Milena Mandarino. Na época das campanhas eleitorais, havia ferrenha disputa entre a Rádio Liberdade e a Gazeta de Sergipe. Quando deixou de circular, a Gazeta fez muita falta, ficando um vazio enorme, pois não tinha, na cidade, um jornal com a coragem e independência que eram a sua marca registrada. A Gazeta de Sergipe sempre fora um jornal combativo e ideologicamente comprometido com os problemas sociais, que afetam, até hoje, os pobres Sergipanos.
Armando Maynard